Como reduzir glosas: estratégias para hospitais e clínicas

Como reduzir glosas: estratégias para hospitais e clínicas

Como reduzir glosas: estratégias para hospitais e clínicas

Com glosas atingindo quase 16% do faturamento em 2025, hospitais e clínicas precisam ir além da contestação posterior. Conheça as estratégias que atuam na origem do problema e protegem o ciclo de receita antes do envio da conta

Rivio

Redação

20 de mar. de 2026

5 minutos

20 de mar. de 2026

5 minutos

Em 2024, os hospitais privados brasileiros tiveram R$ 5,8 bilhões em pagamentos retidos por planos de saúde via glosas, o que representou 15,89% do total que deveriam ter recebido das operadoras (aumento de quatro pontos percentuais em relação a 2023). Os dados são de um levantamento da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados) com 85 instituições. Historicamente, a taxa de glosas girava entre 3% e 5%. Em 2022, saltou para 9%; em 2023, para 11,8%; e em 2024, atingiu quase 16%.

Além do impacto imediato no caixa, o tempo médio para pagamento das contas hospitalares saltou de 60 a 70 dias para 120 dias em 2024.

Parte das glosas decorre de divergências clínicas entre prestadores e operadoras, mas outra parte (significativa e evitável) tem origem nos processos internos do próprio hospital. Este artigo foca nessa segunda frente: as estratégias que estão dentro do controle da gestão hospitalar.

O que causa as glosas hospitalares

Cada glosa tem uma causa raiz. Identificada e tratada, ela deixa de se repetir. Na prática hospitalar, as origens mais frequentes se agrupam em quatro categorias.

Para uma visão completa sobre o que são glosas e como se classificam, consulte o artigo Glosas: saiba o que são e como é possível evitá-las.

Erros de codificação e preenchimento

A codificação incorreta de procedimentos é uma das principais fontes de glosa técnica. Quando o código TUSS registrado na conta não corresponde ao procedimento efetivamente realizado, ou quando há incompatibilidade entre o código do diagnóstico (CID) e o procedimento cobrado, a operadora tem base para glosar o item.

A origem costuma ser a falta de padronização entre equipe clínica e faturamento: o médico registra com uma terminologia, o faturista codifica com outra. Sem protocolo de alinhamento, o ruído se acumula conta após conta.

Falhas na autorização prévia

Procedimentos realizados sem a devida autorização da operadora (ou com autorização vencida) são glosados de forma quase automática. O mesmo ocorre quando o código autorizado difere do código faturado, ainda que o procedimento realizado seja o mesmo.

A pressão assistencial em urgências agrava esse risco. Sem um fluxo organizado de checagem antes do procedimento, a autorização pode se transformar em um gargalo no ciclo de receita.

Documentação clínica incompleta

A conta médica precisa ser sustentada por documentação que comprove a necessidade clínica de cada item cobrado. Laudos sem assinatura, evoluções incompletas, ausência de justificativa para materiais especiais (como OPME) ou relatórios médicos genéricos são motivos frequentes de glosa clínica.

Esse tipo de glosa é especialmente comum em contas de alta complexidade, em que o volume de itens cobrados exige uma documentação proporcional em detalhamento e rastreabilidade.

Glosa administrativa: divergências contratuais

A glosa administrativa tem origem em inconsistências entre o que foi cobrado e o que está previsto no contrato com a operadora. Cobrar um item fora da tabela pactuada, usar uma diária de acomodação superior à contratada ou faturar um honorário com percentual diferente do acordado são exemplos típicos.

Esse tipo de glosa revela, na maioria dos casos, desatualização ou desconhecimento do contrato vigente por parte da equipe de faturamento.

Como medir o impacto das glosas no ciclo de receita

Reduzir glosas começa por medi-las. Com indicadores confiáveis, a gestão não apenas sabe que o problema existe como consegue dimensioná-lo e acompanhar as ações corretivas. Quatro indicadores formam a base de um painel eficiente.

Taxa de glosa inicial

Mede o percentual do faturamento bruto que foi glosado pela operadora na primeira análise da conta, antes de qualquer recurso. É o indicador mais imediato do volume do problema.

Fórmula:

(Valor glosado / Valor faturado) x 100

A referência histórica para hospitais privados era de 3% a 5%. Esse patamar foi superado de forma consistente desde 2022, o que reforça a necessidade de monitorar a taxa por operadora e por tipo de procedimento, não apenas no consolidado.

Taxa de glosa aceita

Mede o percentual do valor glosado que, após o processo de recurso, permanece aceito como glosa válida pela própria instituição. É o indicador que separa a glosa legítima da glosa indevida.

Fórmula:

(Valor de glosa aceita / Valor total glosado) x 100

Os dados do Observatório Anahp 2025 mostram que a taxa de glosa aceita ficou em 1,96% da receita bruta de convênios em 2024. Isso significa que a maior parte do volume glosado é, ao final das negociações, reconhecida como pagamento devido. O problema está no tempo e nos recursos consumidos nesse processo.

Taxa de recuperação de glosas

Mede a eficácia do processo de recurso: do total glosado, quanto o hospital efetivamente recuperou.

Fórmula:

(Valor recuperado via recurso / Valor total glosado) x 100

Uma taxa de recuperação baixa pode indicar falhas no processo de contestação, prazos perdidos ou falta de documentação de suporte. Uma taxa alta, por outro lado, pode mascarar um problema maior: a glosa não deveria ter ocorrido em primeiro lugar.

Prazo médio de resolução de glosas

Mede o tempo entre a identificação da glosa e sua resolução definitiva, seja pelo pagamento após recurso, seja pelo registro contábil da perda. Impacta diretamente o fluxo de caixa do hospital.

O acompanhamento desse indicador por operadora revela padrões importantes: algumas operadoras têm processos de análise mais ágeis; outras estendem o prazo de resolução, o que aumenta o custo financeiro da glosa para o prestador.

Monitorar esses indicadores de forma segmentada, por operadora, tipo de glosa e setor, é o ponto de partida para uma redução consistente.

7 estratégias para reduzir glosas em hospitais e clínicas

As estratégias a seguir atuam em dois momentos: antes do faturamento, prevenindo a glosa; e depois, aumentando a taxa de recuperação. O maior impacto vem da combinação das duas frentes.

1. Padronizar a codificação de procedimentos

A padronização começa com um mapeamento dos procedimentos mais realizados pela instituição e a definição dos códigos TUSS correspondentes, validados em conjunto pela equipe médica e pelo setor de faturamento. Esse alinhamento elimina a margem de interpretação que gera inconsistência entre o que foi realizado e o que foi cobrado.

Esse mapeamento deve virar um protocolo formal, acessível a todos os faturistas e atualizado a cada mudança na tabela TUSS ou nos contratos. Confira as atualizações da Tabela TUSS 2025.

2. Implantar auditoria concorrente

A auditoria concorrente é realizada durante a internação do paciente, antes do fechamento da conta. Seu objetivo é identificar inconsistências no registro dos procedimentos, materiais e medicamentos enquanto ainda é possível corrigi-las, sem perda de prazo ou de documentação.

Na prática, reduz glosas técnicas e clínicas de forma preventiva, sem depender do recurso posterior.

3. Treinar equipes de faturamento continuamente

Erros de preenchimento, uso de códigos desatualizados e desconhecimento das regras contratuais de cada operadora são, em grande medida, problemas de capacitação. Um programa de treinamento contínuo para faturistas, com atenção especial às atualizações das tabelas TUSS e TISS e às particularidades de cada operadora, reduz a incidência de glosas administrativas e técnicas de forma consistente.

O treinamento deve alcançar também a equipe assistencial: médicos e enfermeiros que registram e justificam corretamente os procedimentos contribuem diretamente para a qualidade da documentação de faturamento.

4. Automatizar a checagem pré-faturamento

A checagem manual de contas complexas é lenta, sujeita a falhas humanas e difícil de escalar. Sistemas de automação conseguem verificar, antes do envio da conta, se os códigos estão corretos, se há autorização vigente, se os materiais faturados constam no contrato e se a documentação clínica está completa.

Essa camada de validação pré-faturamento reduz o volume de glosas na primeira análise da operadora e diminui o retrabalho da equipe de faturamento.

5. Fortalecer o processo de autorização prévia

A autorização prévia precisa ser tratada como etapa obrigatória do fluxo assistencial, e não como tarefa administrativa paralela. Isso significa definir responsáveis claros pelo processo de solicitação, estabelecer prazos internos de antecedência e criar alertas para autorizações próximas do vencimento.

Para procedimentos eletivos, o fluxo de autorização deve ser concluído antes da data de internação. Para urgências, é necessário um protocolo específico que garanta o registro imediato da solicitação retroativa, dentro dos prazos previstos em contrato e pelas resoluções normativas da ANS.

6. Estruturar o recurso de glosa de forma sistemática

O recurso de glosa não pode depender da memória ou da disponibilidade pontual de um faturista. Precisa de um processo definido: prazo de entrada, modelo de contestação por tipo de glosa, documentação padrão de suporte e registro de cada recurso aberto e seu desfecho.

Esse registro histórico é estratégico: permite identificar quais operadoras glosam determinados itens de forma recorrente, quais tipos de glosa têm maior taxa de reversão e onde vale a pena investir esforço de contestação. O artigo Recurso de glosa: como controlar e recuperar valores apresenta um passo a passo para estruturar esse processo.

7. Monitorar padrões de glosa por operadora

Cada operadora tem critérios, tabelas e comportamentos próprios de auditoria. Uma glosa recorrente da operadora A em determinado procedimento pode indicar uma divergência contratual específica, uma exigência documental não atendida ou uma prática de auditoria que precisa ser discutida formalmente.

O monitoramento por operadora transforma dados dispersos em inteligência de gestão. Com esse mapeamento, o hospital consegue antecipar as exigências de cada operadora, ajustar os processos de faturamento de forma segmentada e priorizar as negociações contratuais que mais impactam o ciclo de receita.

Glosa técnica, clínica e administrativa: estratégias diferentes para cada tipo

As estratégias de prevenção variam conforme a origem da glosa. A tabela abaixo sintetiza as diferenças entre os três tipos e aponta a ação preventiva mais eficaz para cada um. 

Critério

Glosa técnica

Glosa clínica

Glosa administrativa

Origem

Erro de codificação, incompatibilidade entre CID e procedimento, ou item não coberto pela tabela contratada

Questionamento da necessidade clínica do procedimento ou do material utilizado

Divergência entre o que foi cobrado e o que está previsto no contrato com a operadora

Exemplo prático

Código TUSS incorreto para um procedimento cirúrgico

Uso de OPME sem justificativa clínica documentada

Diária de acomodação cobrada acima do tipo contratado

Quem origina o erro

Equipe de faturamento

Equipe assistencial (médico, enfermeiro)

Equipe de faturamento ou gestão de contratos

Ação preventiva principal

Padronização de codificação e checagem pré-faturamento

Fortalecimento da documentação clínica e auditoria concorrente

Atualização e disseminação dos contratos com cada operadora

Ação corretiva principal

Recurso com o código correto e comprovante do procedimento realizado

Recurso com laudo médico detalhado e justificativa clínica

Recurso com cópia do contrato e comprovante do item cobrado

Dificuldade de reversão

Média

Alta

Baixa a média

 A glosa clínica tende a ser a mais difícil de reverter porque envolve julgamento de mérito sobre a conduta assistencial, e não apenas a correção de um dado. Por isso, a prevenção, via documentação clínica robusta e auditoria concorrente, é mais eficaz que a contestação posterior.

A glosa administrativa, por outro lado, tem alto potencial de reversão quando o hospital mantém os contratos atualizados e a equipe de faturamento conhece as regras específicas de cada operadora. Em muitos casos, basta apresentar o trecho contratual correspondente para reverter a glosa.

A glosa técnica é evitável com padronização e reversível com evidência documental. O maior risco está na acumulação silenciosa em contas de menor valor, que passam sem contestação por falta de priorização.

Como a IA ajuda a evitar glosas

A trajetória das glosas no setor hospitalar brasileiro mostra que esperar para contestar depois do faturamento é uma estratégia cada vez mais cara. As estratégias deste artigo compartilham um princípio: deslocar o esforço da correção para a prevenção. Padronizar codificação, fortalecer a autorização prévia, implantar auditoria concorrente e monitorar padrões por operadora reduzem a glosa na origem, sem depender do recurso posterior.

A Rivio nasceu com o propósito de transformar a gestão hospitalar por meio de inteligência artificial. Em um cenário cada vez mais pressionado por custos, complexidade regulatória e ineficiências operacionais, acreditamos que a tecnologia é o caminho para devolver previsibilidade financeira, escala e inteligência aos processos administrativos da saúde.

Nossa visão é clara: construir o melhor sistema operacional da saúde na América Latina, começando pelo ciclo da receita hospitalar. Ao automatizar análises, reduzir retrabalho e apoiar decisões com dados confiáveis, ajudamos hospitais a operar com mais eficiência, liberar tempo das equipes e criar as condições necessárias para focar no que realmente importa: a qualidade do cuidado e a experiência do paciente. 

Perguntas frequentes sobre redução de glosas hospitalares

Qual o percentual aceitável de glosas em um hospital?

Historicamente, a referência de mercado para hospitais privados brasileiros ficava entre 3% e 5% de glosas iniciais sobre o faturamento bruto. Esse patamar foi superado de forma consistente desde 2022, o que torna cada vez mais importante que cada instituição defina sua própria meta, monitorada por operadora e por tipo de procedimento, e não apenas no consolidado.

Como contestar uma glosa de plano de saúde?

O processo de contestação, chamado de recurso de glosa, deve ser feito dentro dos prazos previstos em contrato e acompanhado da documentação que comprove a correção da cobrança: código do procedimento realizado, autorização vigente, laudo médico ou justificativa clínica, conforme o tipo de glosa. Um processo estruturado de recurso, com registro de cada contestação e seu desfecho, aumenta a taxa de recuperação.

Quais os prazos para recurso de glosa?

Os prazos variam conforme o contrato firmado entre o hospital e cada operadora. Em geral, situam-se entre 30 e 90 dias a partir da notificação da glosa.

Como a auditoria concorrente ajuda a reduzir glosas?

A auditoria concorrente atua durante a internação do paciente, antes do fechamento da conta. Ela permite identificar e corrigir inconsistências no registro de procedimentos, materiais e medicamentos enquanto o paciente ainda está internado, quando a documentação está acessível e os profissionais envolvidos podem complementar informações. Isso reduz glosas técnicas e clínicas de forma preventiva, sem depender do recurso posterior.

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