
Durante décadas, o sistema de saúde aprendeu a medir sucesso de uma forma simples mas enganosa. Quanto mais consultas realizadas, exames solicitados e procedimentos faturados, melhor parecia o desempenho de hospitais, clínicas e operadoras. Esse modelo, conhecido como fee-for-service (ou “pagamento por serviço), criou um incentivo ruim: produzir mais atos assistenciais, mesmo quando isso pouco alterava (ou até atrapalhava) a trajetória clínica do paciente.
O resultado é conhecido por qualquer gestor do setor. Custos crescentes, desperdícios difíceis de enxergar, pressão contínua sobre margens e pacientes que atravessam longos ciclos de cuidado sem melhora proporcional. Foi a partir dessa contradição que surgiu uma das ideias mais influentes da gestão em saúde nas últimas décadas: o Value-Based Healthcare (VBHC), ou Saúde Baseada em Valor.
De onde vem o conceito de Value-Based Healthcare (VBHC)
O VBHC é uma abordagem que tenta entender a saúde de forma qualitativa, e não meramente quantitativa. O conceito não nasceu dentro de um hospital, mas no campo da estratégia. Seu principal formulador é Michael E. Porter, professor da Harvard Business School e uma das maiores referências mundiais em estratégia competitiva.
Porter ficou conhecido por ajudar empresas a responder perguntas como: o que é desempenho?, como medir vantagem competitiva? e onde a gestão realmente cria valor?
Ao estudar o setor de saúde, Porter chegou a uma conclusão incômoda: diferentemente de quase todas as outras indústrias, a saúde não sabia responder com clareza o que exatamente estava tentando otimizar. A produção aumentava, os custos cresciam, mas o impacto real sobre a vida dos pacientes permanecia difuso.
Foi dessa lacuna que nasceu o conceito de valor em saúde.
O que significa “valor” quando falamos de saúde?
Para Porter, valor não é satisfação genérica nem percepção subjetiva de qualidade. Valor é uma relação objetiva entre dois elementos inseparáveis: os desfechos clínicos que importam para o paciente e o custo total para alcançar esses desfechos ao longo de todo o ciclo de cuidado.
Essa definição muda radicalmente o eixo da gestão. Não basta fazer mais, nem fazer mais barato isoladamente. Um cuidado só gera valor quando melhora, de forma mensurável, a condição do paciente sem consumir recursos de maneira desproporcional.
Na prática, isso força gestores e profissionais a responder a perguntas que o modelo tradicional evitava: o paciente realmente melhorou? Por quanto tempo? Com qual impacto funcional? E a que custo total?
Por que medir processos já não é suficiente
Grande parte das instituições de saúde ainda opera orientada por indicadores de processo: tempo de espera, taxa de ocupação, número de exames realizados, volume cirúrgico. Esses indicadores ajudam a organizar a operação, mas não garantem que o cuidado cumpriu seu propósito.
No VBHC, o foco se desloca para desfechos. Em uma cirurgia de quadril, por exemplo, o sucesso não é apenas a execução técnica do procedimento ou a alta hospitalar. O verdadeiro resultado é saber se, semanas depois, o paciente voltou a caminhar, reduziu a dor e recuperou autonomia.
Esse olhar obriga a enxergar o cuidado como um ciclo completo, e não como uma sequência de atos desconectados.
Organizar o cuidado em torno da condição do paciente
Outro ponto central da proposta de Porter é a crítica à fragmentação estrutural da saúde. Hospitais se organizam por especialidades e departamentos; pacientes vivenciam doenças, não organogramas.
A resposta a essa distorção são as Unidades de Prática Integrada (IPUs). Nessas unidades, equipes multidisciplinares se organizam em torno de uma condição clínica específica. Elas compartilham a responsabilidade pelos resultados e pelos custos ao longo de todo o tratamento.
Essa mudança reduz redundâncias, melhora a coordenação e cria um ambiente mais propício à padronização baseada em evidência, um pré-requisito para gerar valor de verdade.
Quando o pagamento precisa refletir o resultado
Porter também deixa claro que não há Saúde Baseada em Valor sem mudar a forma de remunerar o cuidado. Enquanto o pagamento continuar sendo feito por procedimento isolado, a lógica do volume seguirá dominante.
Modelos como o bundled payment, que remuneram todo o ciclo de cuidado, alinham incentivo econômico e resultado clínico. Complicações evitáveis deixam de gerar receita adicional; eficiência passa a ser recompensa, não ameaça.
O impacto do VBHC além dos hospitais
O VBHC não transforma apenas hospitais e operadoras. Ele redefine a lógica comercial de toda a cadeia da saúde.
Para empresas reguladas, com exigências de compliance e Certificado de AFE da Anvisa, produtos e tecnologias deixam de competir apenas por preço e passam a ser avaliados pela capacidade de reduzir custos globais, evitar eventos adversos e melhorar desfechos clínicos.
Nesse cenário, o diferencial está em provar real impacto do cuidado.
O valor como novo norte da gestão em saúde
Ao trazer conceitos da estratégia para dentro da saúde, Michael Porter ajudou o setor a formular uma pergunta fundamental: para quem exatamente o sistema está criando valor?
A Saúde Baseada em Valor não é uma agenda acadêmica, mas uma resposta a uma crise estrutural. Em um ambiente de recursos limitados e demandas crescentes, gerar valor deixou de ser opção e passou a ser condição de sustentabilidade.
Para gestores, a métrica definitiva não é mais o volume produzido, mas quanto valor foi entregue a cada paciente ao longo do cuidado.
A Visão Rivio
Transformar valor em prática exige algo essencial: dados integrados, confiáveis e acessíveis. Sem visibilidade sobre custos, desfechos e variações de processo, o VBHC permanece apenas como discurso.
Ao conectar dados clínicos, operacionais e financeiros, soluções de inteligência artificial aplicadas à gestão hospitalar permitem que o conceito de valor se traduza em decisões alinhadas aos princípios da Saúde Baseada em Valor.



