
Da intenção à execução: como usar a IA na gestão hospitalar

Gustavo Caruso
Engenheiro de IA e membro do conselho técnico da Rivio
Que o interesse pela inteligência artificial (IA) na saúde nunca foi tão evidente, todos sabem, mas quero propor uma reflexão sobre o seu uso real. Eu tinha algumas percepções baseadas na experiência profissional, mas agora uma pesquisa confirma o que antes poderia ser uma visão parcial ou pessoal: a aplicação de IA só sairá do campo da experimentação quando se tornar prioridade nas organizações.
A sua oficialização nos hospitais depende de integração tecnológica e organizacional. É necessária a convergência entre engenheiros especializados e profissionais que dominam a operação hospitalar. Sem harmonia entre tecnologia e prática assistencial, o uso da IA tende a permanecer pontual e informal, como revela a pesquisa produzida pelo Instituto Opinion Box: mais de 90% das aplicações de IA na gestão hospitalar ocorrem de maneira não oficial.
Internalizar essa transformação significa alinhar áreas que sempre operaram com prioridades distintas. Exige governança, revisão de fluxos, criação de protocolos, definição de responsabilidades e investimento em capacitação. Trata-se de um movimento que demanda competências escassas, especialmente de profissionais capazes de transitar entre engenharia de dados, criação de agentes de IA para automação de tarefas e operação hospitalar.
Nesse cenário, ganham relevância modelos estruturados de implementação. Ao integrar IA e conhecimento hospitalar de forma coordenada, os modelos tornam viável o que seria complexo para as instituições realizarem com recursos próprios.
Não há fórmula mágica, mas há método. Alguns bem conhecidos, como colocar profissionais com habilidades distintas na mesma sala diariamente, desenhando na lousa e debatendo formas de incluir a IA não como um experimento, mas como a nova forma oficial para deixar o hospital mais eficiente. Os resultados começam a aparecer. Em testes conduzidos em mais de 50 hospitais, a aplicação estruturada de inteligência artificial demonstrou potencial para recuperar entre 5% e 8% da receita – valores perdidos por falha administrativa, inconsistência de faturamento ou ineficiência operacional.
Esses recursos, quando reintegrados, passam a financiar a ampliação de leitos, a modernização de equipamentos e o fortalecimento de equipes. Trata-se de devolver eficiência financeira à saúde para ampliar sua capacidade de cuidar e de salvar vidas. É nesse momento que a IA, de fato, gera valor e traz benefícios para quem precisa de atendimento.


