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O hospital brasileiro ficou mais eficiente em 2025. A margem caiu mesmo assim.
Em 2025, o hospital usou melhor cada leito e mesmo assim viu a margem cair. Os números da Anahp mostram onde o dinheiro ficou.
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- Rafael Elustondo de SouzaDirector of Go‑To‑Market
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Passo boa parte das minhas semanas conversando com CFO nos hospitais. A conversa quase sempre começa pelo painel assistencial, e ali os números estão bons. Depois alguém abre o resultado financeiro, e o clima muda. Já vi essa cena no Sul, no Sudeste e no Nordeste, em instituições de portes muito diferentes. A pergunta que sobra é sempre parecida: se a operação melhorou, por que o resultado não melhorou junto?
O Observatório Anahp 2026 responde isso com bastante precisão.
Comece pela operação. Em 2025, entre os 138 hospitais que alimentam o Sistema de Indicadores Hospitalares da Anahp, a média de permanência caiu para 3,76 dias, o menor patamar da série histórica. O giro de leito subiu para 6,09. O intervalo de substituição ficou em 1,19 dia. A própria Anahp lê esse conjunto como um dos principais sinais de eficiência no uso de leitos. E a demanda acompanhou: o país fechou o ano com 53,18 milhões de beneficiários de planos de saúde.
Agora o resultado. No mesmo ano, a margem EBITDA média dos hospitais caiu para 11,05%, contra 11,68% em 2024.
A conta que explica esse intervalo está na receita e na despesa por paciente-dia. Descontada a inflação, a receita líquida por paciente-dia subiu 2,49% em 2025. A despesa total por paciente-dia subiu 10,88%. A despesa correu mais de quatro vezes mais rápido que a receita, em termos reais, justamente no ano em que o hospital passou a usar melhor cada leito que tem.

Vale reparar em como a Anahp monta essa receita líquida. Ela já vem depois dos impostos e depois dos valores glosados e não recebidos. Os 2,49% são o que sobrou. O que ficou retido no caminho aparece em outro indicador: a glosa inicial das operadoras, que mede o que foi glosado e segue em negociação, ficou em 15,93% em 2025. Era 11,89% em 2023. No mesmo período, o índice de recebimento caiu de 91,27% para 85,80%.
Não é o ciclo
A leitura mais comum é que o setor atravessa um momento ruim e que a maré sobe para todo mundo em algum momento. Os dados não sustentam isso. No primeiro trimestre de 2026, mais de 80% das operadoras registraram resultado positivo. O hospital não acompanhou. Dois elos da mesma cadeia, debruçados sobre a mesma conta médica, com resultados andando em direções opostas.
A explicação que eu vejo na prática tem pouco a ver com ciclo econômico e muito a ver com capacidade de processamento.
Do lado da operadora, a análise da conta virou processo industrial. Regra codificada, aplicação automática, escala. Gerar uma glosa custa pouco e acontece em lote.
Do lado do hospital, a defesa dessa mesma conta segue artesanal. Uma pessoa lê o prontuário. Uma pessoa localiza a autorização. Uma pessoa monta o recurso. Uma conta por vez.
Quando um lado automatiza a negativa e o outro responde no braço, o desfecho para de depender de quem tem razão. Passa a depender de quem processa mais rápido. Boa parte do que se perde em glosa não se perde por falta de argumento. Perde-se por falta de braço para sustentar o argumento dentro do prazo.

O prazo fecha a conta
Em 2025, o hospital recebeu das operadoras em 77,35 dias, cerca de sete dias a mais que em 2024. E pagou seus fornecedores em 48,30 dias. São 29 dias de diferença que alguém precisa financiar, e esse alguém é o hospital. Junte a isso a dependência de 76,47% da receita bruta vinda de convênios e capital de giro deixa de ser assunto de tesouraria para virar pauta de conselho.

É por isso que reajuste, sozinho, não resolve. Reajuste melhora o preço de uma conta que continua sendo analisada por máquina de um lado e defendida por pessoa do outro. Enquanto essa assimetria existir, parte do que se ganha na negociação volta como glosa no ano seguinte.
O que muda o jogo é o hospital chegar à mesa com capacidade de processamento equivalente. Na prática, isso significa tratar a documentação clínica como prova desde o primeiro registro, e não como papel a ser garimpado depois que a glosa chegou. Significa saber, no mesmo dia, quais contas estão em risco e por qual motivo. Significa ter o rastro da autorização recuperável em segundos, não em semanas.
Nada disso depende de tecnologia que ainda não existe. Depende de decidir que o ciclo de receita merece o mesmo rigor de gestão que a operação assistencial recebeu na última década.
O hospital brasileiro já provou que sabe operar melhor. Os indicadores de leito de 2025 mostram isso com clareza. A eficiência assistencial já foi conquistada. Falta ela chegar inteira até o caixa.
Rafael Elustondo de Souza é Director of Go-To-Market da Rivio. Antes, passou quinze anos no setor de congressos médicos e na relação com a indústria farmacêutica.
Publicado originalmente em Saúde Digital News.


