
A saúde precisa de médicos. E de engenheiros
Boa parte do tempo dos profissionais de saúde hoje não é dedicada a cuidar de pessoas, mas a sustentar uma burocracia que deveria ser invisível
Muitos dos médicos da nova geração saem da faculdade com formação sólida para a atenção clínica, atentos às tecnologias que estão transformando a saúde. Porém, ingressam no mercado pouco preparados para algo que raramente aparece no currículo: navegar dentro de um sistema que não foi projetado para eles.
Esse descompasso, que começa nos primeiros anos de profissão, me incomoda. Gera fadiga, desânimo e burnout em muitos desses profissionais, não porque sejam frágeis, mas pela exaustão de um sistema mal desenhado que se soma ao cansaço natural de uma rotina intensa. O cansaço da rotina é recuperável. O do sistema corrói.
Escrevo não como alguém que enxerga o sistema de fora. Comecei lendo radiografias e tomografias de tórax, imaginando que minha carreira caberia numa sala escura, diante de imagens. Aprendi, como médico, que entender o paciente à minha frente era só parte do trabalho.
A outra parte, tão significativa quanto a primeira, era entender o sistema em que esse paciente estava inserido, e o quanto esse modelo muitas vezes jogava contra todos: médicos, pacientes, operadoras, empresas. Hoje, na gestão médica, vejo a conta inteira: mesmo a melhor decisão clínica pode ser inviabilizada por uma operação hospitalar sem infraestrutura para sustentá-la
O custo humano da ineficiência
Há uma verdade que a medicina tem dificuldade de dizer em voz alta: boa parte do tempo dos profissionais de saúde hoje não é dedicada a cuidar de pessoas. É gasta sustentando uma burocracia que deveria ser invisível. Codificação de procedimentos. Justificativas para operadoras. Contestação manual de glosas. Formulários de auditoria. São horas clínicas consumidas por um aparato que nada tem a ver com o que esses profissionais estudaram para fazer. É médico preenchendo formulário quando deveria estar olhando nos olhos do paciente. É enfermeiro respondendo auditoria quando deveria estar à beira do leito.
O dado que traduz isso é quase absurdo. Em 2025, hospitais privados viram a glosa inicial alcançar mais que 15% do faturamento. A partir daí, um exército operacional passa meses contestando, conciliando e provando o que já era certo, com pagamentos acontecendo muito tempo depois, no melhor dos cenários. Tempo que deveria estar a serviço do cuidado vira capital de giro de uma disputa operacional.
O problema não está nos profissionais, mas na forma como a operação de saúde foi projetada. Quando passei a olhar isso por dentro, o que mais me chamou a atenção não foi o desperdício em si. Foi a desproporção entre a complexidade de um hospital e a capacidade de engenharia dedicada a sustentá-lo.
O que os outros setores já entenderam
Um hospital de grande porte opera ininterruptamente, coordena dezenas de departamentos críticos em tempo real e administra contratos com múltiplas operadoras, cada uma com tabelas, prazos e regras próprias. Em volume e sensibilidade de dados, rivaliza com uma instituição financeira. E ainda é gerido, em boa parte do setor, com planilhas, sistemas legados que não conversam entre si e processos que dependem da memória de quem está há mais tempo na casa.
O que mais impressiona, porém, não é o tamanho da glosa. É o tamanho da equipe de tecnologia diante da complexidade que ela precisa sustentar. A área técnica costuma ser uma fração mínima do quadro. Onde um banco ou uma fintech colocariam a tecnologia no centro da operação, o hospital ainda a trata como suporte. A desproporção entre o problema a resolver e a capacidade dedicada a resolvê-lo é o que salta aos olhos.
Na saúde, essa defasagem tem uma consequência que poucos setores enfrentam de forma tão direta: ela chega ao cuidado. A cadeia é simples. Quando um hospital deixa de receber parte da receita a que tinha direito, esse dinheiro não vira leito, não vira medicamento, não vira salário de enfermeiro, não vira UTI funcionando. Eficiência operacional, aqui, não é assunto administrativo. É assunto assistencial.
Dizer que a saúde precisa de engenheiros não é diminuir quem cuida. A medicina brasileira entrega resultados extraordinários sob condições que seriam inaceitáveis em muitos outros setores. Mas confiar a operação ao esforço individual não é um modelo. É uma aposta que se renova todo dia.
Engenheiros no sentido amplo: gente que pensa em arquitetura, em escala, em como as coisas funcionam por baixo. Pessoas que olham processos com desperdício recorrente, prazos que se arrastam e contratos ilegíveis, e enxergam o que outros não veem.
Bancos, varejo, logística: todos chegaram a um ponto em que perceberam que não dava para crescer tratando tecnologia como suporte, e não como núcleo. A saúde está agora nesse limiar. A transformação não vem de mais software sobre processos errados. Vem de trocar a camada manual e reativa por uma infraestrutura que opere em tempo real, reduza desperdícios evitáveis e devolva ao profissional de saúde o que é dele: o tempo dedicado a cuidar.
Quando converso com estudantes e médicos em início de carreira, sempre volto ao mesmo ponto: a saúde que vocês vão praticar será cada vez mais dependente de sistemas bem construídos. Isso pede uma relação diferente com a tecnologia. Não é preciso virar engenheiro. É preciso entender o suficiente para cobrar, colaborar e reconhecer quando um sistema foi feito para ajudar e quando foi feito para dificultar.
O manifesto da Rivio tem uma frase que ficou comigo: "hospitais eficientes salvam mais vidas". Diz de forma simples o que às vezes esquecemos no meio da operação. Cada real recuperado de uma glosa indevida volta para o cuidado. Cada hora devolvida ao médico pela automação de um processo volta para o paciente. Cada decisão tomada com dados reais é uma decisão melhor.
Minha obrigação, e a de quem trabalha com saúde no Brasil, é fazer com que o sistema a ser herdado pelos próximos médicos seja digno do que aprenderam. A saúde não precisa escolher entre ser humana e ser eficiente. Ela precisa ser as duas coisas. E, para isso, precisa de todos: médicos, enfermeiros, gestores. E engenheiros.



