Medicina e IA: mais tecnologia, mais humanidade

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Medicina e IA: mais tecnologia, mais humanidade

Inteligência artificial e a nova geração médica: uma transformação inevitável

Gustavo Meirelles

Médico especialista em Radiologia Torácica pela University of British Columbia, criador da Comunidade Inovação em Saúde

13 de abr. de 2026

5 minutos

13 de abr. de 2026

5 minutos

Artigo originalmente publicado no MIT Sloan Management Review em 25/03/26.

Em dez anos, entre 2014 e 2024, o número de vagas em cursos de medicina no Brasil cresceu 139%, segundo o Censo da Educação Superior. Essa expansão quantitativa veio acompanhada de uma mudança profunda, sobre a qual tenho refletido ao participar de palestras, debates ou conversas com colegas médicos, estudantes, empreendedores, executivos e jornalistas: a transformação do perfil do estudante e, consequentemente, do futuro da prática médica.

Já estava em formação uma geração que enxerga a medicina para além do consultório, muito focada em inovação, gestão e tecnologia. A figura do jaleco branco e do estetoscópio deixou de representar toda a profissão. Os novos alunos de medicina passaram a aprender também a ser gestores hospitalares, pesquisadores, desenvolvedores de soluções e especialistas em engenharia clínica, entre outras. Com a chegada da IA, essa mudança tornou-se ainda mais profunda e necessária.

A medicina deixou, definitivamente, de ser apenas um campo assistencial para se tornar um ecossistema complexo, multidisciplinar e tecnológico. A inteligência artificial, antes mais presente na pesquisa, agora faz parte da rotina assistencial e precisa assumir seu papel também no ensino médico. 

Não se trata mais de discutir se ela fará parte da medicina, mas de como será incorporada de maneira responsável e estruturada. O uso é intenso entre estudantes e profissionais. Ferramentas baseadas em modelos generativos amplamente disponíveis são utilizadas para revisão de conteúdo, organização de estudos e apoio à tomada de decisão. Na prática assistencial, algoritmos já auxiliam na análise de exames de imagem, na predição de risco clínico, na triagem de pacientes e na organização de protocolos baseados em evidência.

Entretanto, é fundamental compreender seus limites e ter inteligência humana para usar as ferramentas a serviço do paciente. O nosso juramento do médico, baseado no de Hipócrates, se mantém como um compromisso solene de ética e humanidade, modernizado na Declaração de Genebra para reafirmar princípios como priorizar a saúde e a autonomia do paciente e exercer a medicina com consciência e dignidade.

A inteligência artificial não substitui o raciocínio clínico, mas amplia a capacidade de análise. Auxilia na interpretação de exames, na sistematização de protocolos e na atualização científica. O papel do médico torna-se ainda mais estratégico: interpretar criticamente as informações, validar evidências e integrar tecnologia com julgamento clínico e sensibilidade humana.

Por isso, defendo o uso de soluções desenvolvidas de forma específica para o ambiente de saúde, como o Whitebook Assist, ferramenta conversacional criada com foco clínico e proteção de informações sensíveis, além da Open Evidence, solução líder mundialmente na área de informação em saúde, entre diversas boas soluções disponíveis no mercado. A diferença não está apenas na tecnologia, mas no propósito e na arquitetura voltada à segurança assistencial.

Noto também que a inteligência artificial já influencia escolhas de carreira. A radiologia, que por anos esteve entre as especialidades mais concorridas, passou a ser evitada por parte dos estudantes receosos quanto à automação. Posso afirmar, por experiência própria, que a IA não eliminará o radiologista. Ela está redefinindo o seu papel, tornando-o ainda mais analítico e mais relevante na tomada de decisão clínica.

Ao mesmo tempo, especialidades como psiquiatria e pediatria ganharam força. O crescimento dos transtornos mentais e a valorização do cuidado integral reforçam a centralidade da dimensão humana da medicina, justamente aquilo que nenhuma tecnologia substitui.

A nova geração médica já combina três pilares: visão humanista, mentalidade empreendedora e fluência tecnológica. A inteligência artificial não é uma ameaça à medicina, mas uma ferramenta que exige preparo, ética e responsabilidade. Formar médicos para esse novo cenário significa integrar ciência, tecnologia e humanismo de maneira intencional.

A medicina do futuro já está presente e será, sem dúvida, cada vez mais digital. E, para ampliar seu valor e gerar mais benefícios para todos, precisará se tornar cada vez mais humana.

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Gustavo Meirelles é vice-presidente médico da Afya, fundador da Comunidade Inovação em Saúde, investidor e conselheiro de startups. Médico radiologista, com especialização, doutorado e pós-doutorado no Brasil e no exterior. Tem experiência como executivo de grandes empresas de saúde, com MBA em gestão empresarial, e é advisor da Rivio. Site oficial: http://www.gustavomeirelles.com

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